O Novelo: um olhar sensível sobre relações e traumas familiares
A diretora Claudia Pinheiro trouxe ao 49º Festival de Cinema de Gramado “O Novelo”, um filme sensível, cheio de camadas e que foca nas relações humanas e traumas de uma vida inteira. O drama é uma história daquelas que logo de cara se destaca e propõe discussões que se conectam com várias famílias brasileiras. Ele conta a história de cinco irmãos negros que acabam sendo criados pelo mais velho após a morte da mãe. É uma viagem sensível e emocionante de se acompanhar.
O longa-metragem é derivado da peça homônima de Nanna de Castro, também roteirista do filme. A diferença é que a adaptação trouxe para o filme algumas camadas a mais, transportando a ficção para uma família negra e que mora no subúrbio, orbitando entre a classe média e a quase pobreza. E essas camadas todas são visualizadas graças aos diferentes perfis dos cinco irmãos, excelentemente interpretados por Nando Cunha (Os Suburbanos, Tomara que Caia), Rocco Pitanga (Impuros), Sérgio Menezes, Rogério Brito e Sydney Santiago Kuanza. Cada um imprime um elemento diferente para as relações entre eles. Embora diferentes, todos são unidos pelos mesmos traumas e origem.
O Novelo brinca com uma herança muito bonita que a família toda tem. Na época em que ficam sem seu pai, os irmãos ajudam a mãe a trabalhar, tricotando e reparando roupas. Daí vem a conexão com o nome do filme/peça. Estão todos ligados e impactados (também) por um aspecto infelizmente comum no Brasil, que é ser uma família sem pai. Aliás, esse é um dos maiores traumas de todos no filme. Indo e vindo da infância (passado) para a vida adulta (presente) dos personagens, vemos que os irmãos precisam não só lidar com a falta da mãe, mas com o abandono do pai em um momento marcante para todos eles. Impossível não se sensibilizar.
A partir daí, os traumas passados vão se refletindo em cada um deles, até que uma urgência recoloca o pai deles novamente em suas vidas. Internado em uma UTI, o hospital chama os filhos que precisam se reunir (e reconectar) com esses mesmos traumas, colocando um ponto final em uma lacuna aberta em suas vidas. Um desfecho necessário para que eles possam se resolver entre eles mesmos, e, de certa forma, ganharem uma espécie de redenção para essa grande ausência sentida durante todas as suas vidas.
O Novelo é bonito e consegue contar várias pequenas histórias, mesclando ainda momentos de tensão, diversidade, racismo, apego, e até mesmo pitadas de comédia, mostrando que a direção de Cláudia Pinheiro é acertada em vários aspectos. Anote o nome. O Novelo é uma obra para entrar na sua lista de estreias.
