O Barulho da Noite, crítica

O impacto perturbador de “O Barulho da Noite”

A quarta noite de exibições do Festival de Cinema de Gramado reservou ao público e crítica provavelmente um dos filmes mais perturbadores da edição de 2023. Direto do Tocantins, a diretora Eva Pereira, pela primeira vez no evento, apresentou “O Barulho da Noite”. O projeto que conta com nomes como Emanuele Araújo (Samantha) e Marcos Palmeira, toca numa ferida e num problema social grave de nosso país, que é a violência doméstica, mais especificamente o estupro. De forma corajosa, o único filme dirigido por uma mulher no evento deste ano é algo que realmente só poderia ser conduzido por alguém que ocupe por completo este lugar de fala.

Para começar, a estatística que mais nos afeta. Segundo os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma pessoa é estuprada no Brasil a cada 8 horas. É o maior número já registrado na história do nosso país. Um número forte. Mais forte ainda quando descobrimos que o recorte é de que pelo menos 10% das vítimas são bebês e crianças de até 4 anos. E é exatamente sobre isso o que vemos em O Barulho da Noite.

Para trazer todo esse impacto, Eva coloca Emanuele Araújo na pele de Soninha, uma dona de casa do interior, em um sítio, provavelmente no Tocantins, que é casada com Agenor (Marcos Palmeira) um homem devoto do Divino Espírito Santo e carinhoso com as duas filhas. Já Soninha parece estar sempre de mal com a vida e não parece suportar o relacionamento, que, no final das contas, é de extremo carinho por parte do patriarca. Soma-se ao núcleo familiar, que vive de forma bem isolada em suas terras onde possuem tudo para sua sobrevivência, as filhas Maria Luiza (Alícia Santana) e Ritinha (Ana Alice Dias), incrivelmente vividas e apresentadas. Um show a parte para o início da triste história que teremos pela frente.

Depois de apresentar o pai amoroso e a mãe turrona. As filhas precisam lidar com a ideia do pai ficar 40 dias fora com a procissão do Divino Espírito Santo pela região. Um programa pra lá de importante para Agenor. Para não deixar a família sozinha, ele chama o sobrinho Athayde (Patrick Sampaio) de outra cidade para cuidar de suas terras e sua família. Assim como tivemos um dia antes, em Mais Pesado é o Céu, também temos a dica de que há um assassino solto pela região. Uma coincidência que conecta os dois filmes … e um artifício de roteiro para deixar o espectador um tanto quanto aflito.

Desde a chegada do irmão, a avalanche de aflição vai subindo. Afinal, será que essa pessoa que chegou é quem realmente é? O fato é que já sabemos que não teremos vida fácil a partir desse acontecimento. A partir daí, a diretora brinca com o público. Uma brincadeira torturante entre ver um pai carinhoso colocar para dentro de casa o que pode ser sua ruína. Não vou dar mais detalhes para não estragar a experiência, mas as teorias poderão fervilhar em sua mente no decorrer do filme.

Com a partida do pai em sua missão religiosa, Maria Luiza e Ritinha perdem seu porto seguro. E a mãe Soninha se mostra um papel ardiloso para Emanuele Araújo, que está muito bem em sua caracterização e presença. Ela não nos deixa ter uma definição concreta de que será vilã o tempo todo. Na verdade, ela é um dos grandes pontos do filme e colocará em xeque sua própria importância como mãe. Uma decisão ousada para recriar uma situação de violência extrema dentro de sua casa, que antes era um lugar de aconchego para duas crianças que pouco entendem da vida. Essa decisão vai nos tirar da zona de conforto até o final do filme. Mas que é provavelmente, a triste realidade em muitos lares Brasil a fora.

Para sua melhor experiência com o filme, é melhor parar de descreverpor aqui. Mas posso afirmar que O Barulho da Noite é um filme único, com um olhar único e boas decisões artísticas. Perturbador como deve ser. Um filme que ficará ecoando em minha mente ainda por muitos dias. 

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Veredito da Vigilia

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