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Matrix retorna atualizado, sarcástico e autorreferente

Quase 20 anos depois dos acontecimentos de Matrix Revolutions, quando Neo se sacrificou para por fim entre o conflito entre humanos e máquinas, surge Matrix Resurrections (estreia no Brasil dia 22 de dezembro). O novo filme da franquia que revolucionou o cinemas no início da década de 2000 surge como uma continuação direta, mas, como a maioria dos novos filmes que envolvem propriedades intelectuais de sucesso que são resgatadas depois de algum tempo, também se propõe a atualizar conceitos e revitalizar o elenco. Em Matrix Resurrections, Lana Wachowski encara de frente o desafio, que tal como o filme explicita, também é mercadológico, mas agora, sem a irmã Lilly, que não topou a empreitada. E esse desafio é ultrapassado com êxito, tendo momentos primorosos, audaciosos, críticos e autorreferentes, mas, ao mesmo tempo, outros um pouco mais arrastados e pouco inspirados.

Matrix retoma a história de seu ponto final, ainda que 20 anos após o sacrifício de Neo (Keanu Reeves, que volta ao papel). Agora, temos ele no simulacro como o criador da Matrix, que no mundo virtual, é um game de sucesso mundial. Como Thomas Anderson, ele vive em São Francisco, faz terapia e tem como vontade íntima falar com Tiffany (na verdade Trinity, novamente vivida por Carrie Anne-Moss), que frequenta sua cafeteria favorita. Mas, ele nunca tem coragem para interagir. Em um estado mental que nos remete a uma confusão e uma falta de lucidez sobre seu entorno, Thomas/Neo apenas leva a vida e frequenta um terapeuta que o dopa com pílulas azuis para que ele fique, de certa forma, controlado. Esse controle começa a cair quando Bugs (a ótima Jessica Henwick) descobre seu “esconderijo” na matriz em um modal que faz uma espécie de looping temporal com acontecimentos envolvendo os Agentes e possíveis renegados contra o “sistema”. É com ela que surge Morpheus (na nova versão com Yahia Abdul-Mateen II da série Watchmen) e a ideia de novamente despertar Neo, uma lenda viva para os que vivem do outro lado do mundo simulado.

Lana Wachowsky em Matrix Resurrections
Lana Wachowsky encarou o desafio com um texto afiado e auto-crítico

É o estopim para a nova aventura, que vai se amparar novamente na relação de Neo e Trinity e na força de seu amor. É quando o filme decola e Lana consegue pontuar em seu texto questões importantes. Agora não temos mais o foco no binarismo (uma pauta frequente em seus trabalhos, dando visibilidade a comunidade trans), afinal, a sociedade e a humanidade não é mais tão simples assim. Temos ainda uma crítica muito escancarada com o mercado cinematográfico. Ela não se esquiva em pontuar que as continuações sempre serão feitas, pois uma empresa sempre vai querer lucrar com elas, independentemente ou não do envolvimento de seus criadores (o próprio filme é um exemplo disso). Os spin-offs e piadas autorreferentes seguem impondo um sarcasmo muito bom nos diálogos. O bullet-time e outras criações do Matrix original (de 1999) reaparecem na lábia de uma equipe de marketing como uma crítica voraz ao sistema que Lana e seus dirigidos precisam se render. Infelizmente isso precisa dar lado para a trama e a nova batalha que está por vir.

Jessica Henwicks em Matrix Resurrections
Buggs (Jessica Henwick) é quem tenta instigar Neo a voltar

É quando entramos na parte mais pedante do filme, com a insistência de mostrar o outro lado onde vivem os humanos que projetam virtualmente seus corpos e vontades. A antiga Zion e a atual Io são ambientes com designs pouco inspirados, e agora, as máquinas inimigas trabalham lado a lado com os humanos. Nada ali parece melhorar a história, e as explicações para que o plano final entre em ação mais confundem do que esclarecem funcionamentos ou mitologias. Respire e tente relevar tudo isso e a ideia que as máquinas, antes inimigas, agora parecem Pets dos humanos. O filme se arrasta nesses cenários e pouco inspira o desenrolar do último ato.

Matrix Resurrections Neo e Trinity
Neo continua sendo um extraclasse, mas tudo tem limites!

A ideia de amparar em Trinity o principal revés do filme é acertada, mas é fácil sentir falta de tempo de tela para ela, que só vai realmente brilhar nos seus últimos minutos. Keanu Reeves, por sua vez, entrega um Neo cambaleante o tempo todo, mas que vai se impondo aos poucos. Os tempos sob o domínio do seu terapeuta (Neil Patrick Harris) parecem ter sido pesados mesmo. E como temos várias situações que bebem da fonte do original, Lana não esqueceu das lutas e coreografias, que replicam momentos históricos e resgatam o filme de 1999 em vários flashes durante a sessão.

O final não traz grandes revoluções, mas faz jus à dupla Neo e Trinity, deixando a heroína ainda mais em evidência. É como se toda a inspiração estivesse na primeira metade do filme, enquanto a segunda chega para cumprir tabelas e mais alguns check-lists em filmes como esse. Como sabemos, é bem difícil entregar algo tão icônico quanto Matrix (1999). Aquele filme criou sua própria revolução, que parece não ter mais gás para quebrar essa barreira. No final das contas, Matrix Resurrections fica na média.

Veredito da Vigilia

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