O Último Animal é um filme estrangeiro bem brasileiro

Diretor português, inglês falado aos montes, mas uma história genuinamente brasileira. O quarto filme da mostra competitiva de longas estrangeiros do 50º Festival de Cinema de Gramado foi exibido na segunda-feira, dia 15 de agosto. O Último Animal, de Leonel Vieira, é uma produção portuguesa e brasileira e aborda o jogo do bicho.

Didi (Junior Vieira) quer melhorar de vida estudando e pretende sair da comunidade onde vive. Porém, apesar de querer viver longe do crime, ele descobre que o estágio que está fazendo é para um famoso bicheiro lusitano erradicado no Rio de Janeiro. É aí que a vida e as escolhas de Didi começam a se confrontar com suas convicções.

Bebendo na fonte de vários filmes nacionais aclamados, como Cidade de Deus, Tropa de Elite e até o mais recente O Mecanismo, O Último Animal usa o recurso da narração para conduzir a história. Além disso, os diálogos são similares ao que já vimos antes no cinema brasileiro. As histórias de comunidades, das brigas de facções, da polícia no morro e do tráfico de drogas, que já são conhecidas do público brasileiro, são abordadas mais uma vez. Só que desta vez, temos uma adição: a cultura do jogo do bicho.

50º Festival de Cinema de Gramado equipe do longa O Último Animal durante a coletiva | Foto: Edison Vara/Agência Pressphoto

Casimiro Alves (Joaquim de Almeida), o Dr. Ciro, como é conhecido, é um dos maiores responsáveis pelo jogo do bicho no Rio de Janeiro. E, a partir do jogo de azar, ele consegue financiar outros dois amores: o futebol e o carnaval. Está com a sensação de já ter ouvido isso antes? Sim, durante toda exibição do longa, eu só pensava em Castor de Andrade, o Dr. Castor, que inclusive ganhou série documental na Globoplay. Apesar de não ter feito menção ao famoso bicheiro, é impossível não pensar que o roteiro do filme não se inspirou, nem que seja um pouco, nesse personagem tão conhecido.

É curioso termos em uma mostra de longas estrangeiros um filme com uma temática tão brasileira. Mas é mais curioso ainda o fato de quase metade deste filme se passar no Brasil e ser falado em inglês, sem nenhuma legenda em português. Afinal, estamos falando de uma sala de exibição localizada no Brasil. As duas línguas oficiais do Festival são português e espanhol. E mesmo assim, a organização deixou passar. Ao que tudo indica, essa foi uma escolha particular de Leonel Vieira, mas não acho correto com o local onde o filme estava sendo exibido.

Outra derrapada do longa é a exploração do corpo feminino e da própria representação da mulher brasileira. As mulheres foram hipersexualizadas sem a menor necessidade. Será que em 2022 devemos fazer filmes onde ligamos futebol, carnaval e mulheres para representar o Brasil? Não preciso nem responder essa questão.

O Último Animal é bem filmado, tem uma temática interessante, mas derrapa nos clichês e peca ao não se reinventar. A sensação é de que “já vimos isso antes”.

Veredito da Vigilia

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