O Debate tem o tema mais importante do ano… e só

“O Debate” adapta o livro homônimo escrito por Jorge Furtado e Guel Arraes e tem distribuição pela Paris Filmes.

Em “O Debate” acompanhamos Paula (Debora Bloch) e Marcos (Paulo Betti) que se separaram depois de 20 anos juntos. Ambos são jornalistas e trabalham nos bastidores de uma emissora de TV. Ela é a apresentadora e ele o editor-chefe do telejornal que está cobrindo o debate do segundo turno dos candidatos à presidência. A força motriz aqui é uma informação que chega minutos antes do evento que pode mudar o rumo das eleições.

Debora Bloch e Paulo Betti no cartaz de O Debate
Pôster de O Debate

O filme tem sim cunho político, e discute a ascensão da extrema direita no Brasil. E para deixar a obra mais atual, existe uma nova variante do novo Coronavírus. Sem citar nomes, Paula comenta que “ele disse que era só uma gripezinha”, então, as coisas ficam bem óbvias por aqui. O ponto positivo do longa é que os candidatos e muito menos “o debate” em questão são mostrados, mas sim a relação entre os dois e como a política está no meio familiar como sociedade. Assim como blocos separados por temas durante o debate televisivo, vamos acompanhando as revelações de como a relação do casal foi se desgastando com o tempo, principalmente em meio a uma pandemia.

O Debaté é dirigido por Caio Blat

A personagem de Debora Bloch é idealista e acredita que a melhor maneira de melhorar o país é a mudança de presidente, enquanto o personagem de Betti (alguns anos mais experiente) está conformado com o rumo do Brasil. Temas variados do cotidiano também são abordados como aborto, ciúmes, estatísticas. Ele é “números” e ela, “ideais”. Mesmo com essas diferenças eles se respeitam até quando decidem se separar.

Debora Bloch e Paulo Betti como Paula e Marcos. Pensamentos diferentes mas o respeito prevalece

O roteiro foi escrito por quatro mãos e não são quaisquer mãos, mas sim de Jorge Furtado (Ilha das Flores, Saneamento Básico, O Homem que Copiava) e Guel Arraes (O Auto da Compadecida, Lisbela e o Prisioneiro), mas por incrível que pareça, ele não tem corpo suficiente para sustentar uma hora e meia de duração. Parafraseando Tite (sim o técnico da seleção brasileira) o filme “fala muito, fala muito”, mas não diz nada. Não quero dizer que lado deve seguir, mas sim a liga que o filme deveria dar, o “tômpero” necessário para a gente se importar com o casal protagonista. A estreia de Caio Blat na direção (ele também faz uma ponta) não foi de encher os olhos. Não vou dizer que a falta de experiência atrapalhou, porque tem muitos diretores que debutam e já arrebentam. Aqui Caio Blat não soube criar a tensão necessária ao mostrar os bastidores televisivos da corrida presidencial e muito menos criar empatia e afeto nos “bastidores” do próprio casal. O filme tem “flashback de flashback” que é totalmente falso e desnecessário.

Caio Blat faz sua estreia como diretor

Debora Bloch e Paulo Betti parecem estar sempre gritando, sem dar respiros ou pausas para as respostas de ambos, construindo um ar teatral para suas performances. Notem: não estou falando mal de atuações teatrais, mas sim que aqui não era a proposta e sim uma má direção de atores. No embate entre os dois, Debora se saiu melhor que Paulo. A trilha sonora é equivocada e acaba soando estranha em alguns momentos.

Esse é um dos casos onde a sétima arte aborda um tema muito importante, atual e necessário. Principalmente vivendo no país que vivemos com o governante que temos. Isso acaba deixando, de um certo modo, complexo separar o filme do argumento. Mas estou aqui para dar meu ponto de vista em relação ao material como um todo. Como filme, “O Debate” é fraco em todos os sentidos. Péssimo? Não. É somente um filme sem vida. Mas como ideia didática à perspectiva política vale sim você ir aos cinemas. Disse em outra oportunidade que ele deveria ser lançado duas semanas antes das eleições e ter uma campanha maior de marketing.

No próprio roteiro do filme temos um trecho em que Paula (Debora Bloch) diz: “um bom texto deveria evitar frases feitas” e a resposta de Marcos (Paulo Betti) foi a seguinte: “no dia a dia se a gente usar só frases originais ninguém vai entender nada”. E mesmo com seus problemas, esse “O Debate” tem um confronto de ideias melhores que o primeiro debate que vimos esse ano na TV recentemente.

No final das contas, “O Debate” é um mal necessário!

Veredito da Vigilia

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