“Sonhar com Leões” mistura cinema brasileiro e português com a vontade de morrer
Eutanásia parece um tema recorrente ultimamente em filmes. Costa-Gavras, aos seus 92 anos, coloca o tema em “Uma Bela Vida”, que fala sobre o direito de morrer. Exibido na quarta-feira, dia 20 de agosto, “Sonhar com Leões”, do diretor português Paolo Marinou-Blanco, foi exibido na Mostra Competitiva de Longa-metragens Brasileiros.
Protagonizado por Denise Fraga, “Sonhar com Leões” é uma coprodução entre Brasil, Portugal e Espanha e mescla a comédia com o drama para dar um tom mais leve a um assunto pesado. No primeiro ato, essas proposta funciona muito bem. Gilda (Denise) parece ser uma mulher muito sozinha, então vai conversando com o público e quebrando a quarta parede de forma recorrente.
Com um câncer terminal, Gilda está decidida a morrer antes que não consiga mais exercer sua autonomia. Para isso, tentou diversas vezes o suicídio, sem sucesso. Então, cansada de viver da forma que está, ela procura uma multinacional que promete levar o paciente até seu fim por 400 euros, como se fosse um grupo de incentivo ao suicídio.
Então, aqui entra a parte mais delicada e controversa do longa. Em primeiro lugar, quando os créditos começaram a subir, os colegas de imprensa tinham uma única opinião: o filme deveria ter aviso de alerta de gatilho para suicídio. Além disso, no final, poderia ter o número do Centro de Valorização da Vida, o CVV (188). O filme aborda o suicídio e não para por aí. “Sonhar com Leões” faz quase um manual de como se matar em algumas de suas cenas. Para quem deseja tirar a própria vida, esse filme pode ser, até mesmo, incentivador. Vale lembrar que as diretrizes do jornalismo, que aprendemos na aula de ética, sempre nos alertam para não contar como a pessoa cometeu o suicídio. Apesar de fazer parte do roteiro, as cenas e os diálogos não precisavam ser tão gráficos.
Quando chega no segundo ato, o filme parece ir para o seu lado B e a protagonista, agora com a companhia de Amadeu (João Nunes Monteiro), passa a viver uma vida menos solitária. Por isso, o roteiro faz com que ela se esqueça do espectador e foque toda sua atenção no garoto que a arrebatou. Sendo assim, o filme fica mais trágico do que cômico e nos vemos torcendo para que ela conquiste o objetivo inicial, que é perder sua própria vida.

Denise Fraga está bem no papel de Gilda. Sua personagem flerta com a vida e a morte na mesma intensidade e traz um debate muito importante sobre o querer morrer antes que deixe suas características principais de lado. Entendemos que, para ela, morrer é uma necessidade de manter a humanidade. Trazer esse tipo de pauta para uma conversa se torna extremamente importante. Afinal, quando debatemos eutanásia, que teoricamente era o tema central do filme, estamos falando no direito de uma pessoa morrer sem precisar, ela mesma, tirar a própria vida.
A fotografia do gaúcho Glauco Firpo, que já esteve nos sets de “Tinta Bruta” e “Cidades Fantasmas” consegue oferecer uma imersão em belas paisagens da Espanha e até mesmo sufocar dentro de um pavilhão abandonado em Lisboa. Tecnicamente, “Sonhar com Leões” é um grande filme.
Como peça narrativa, “Sonha com Leões” é um bom filme. Apesar dos detalhes do suicídio, o longa promove o importante debate sobre a eutanásia e o direito de morrer. Previsto para estrear no dia 11 de setembro, durante o Setembro Amarelo, a obra audiovisual mescla bem o cinema português com a espirituosa atuação brasileira.
