“Querido Mundo” mostra que a linguagem de cinema e de teatro são completamente diferentes
Miguel Falabella subiu, novamente, ao palco do Palácio dos Festivais para apresentar “Querido Mundo” na noite de segunda-feira, dia 18 de agosto de 2025. Esse novamente não está à toa na primeira frase do texto. “Veneza”, de 2019, é muito similar a este longa. Tanto em sua linguagem, bem como na produção. Também codirigido por Hsu Chien e protagonizado por Eduardo Moscovis, o novo longa é a adaptação de uma peça teatral para as grandes telas do cinema.
A história de “Querido Mundo” apresenta duas vidas paralelas que parecem destinadas a se encontrar. Enquanto Elsa (Malu Galli) vive em uma pacata cidade sertaneja, em que os homens usam jeans, regata e chapéu, o engenheiro Oswaldo (Moscovis) é convidado a se retirar de casa e abandonar seu casamento falido com Odila (Danielle Winnits, em mais um papel de perua fútil). O destino dos dois é o mesmo e fica óbvio nos primeiros minutos do longa.
Elsa vive em algum lugar no interior do Brasil (mas que pelas vestimentas e costume, poderia ficar no Texas ou no Arizona). Ela divide a sua vida com o violento marido Gilberto (Marcello Novaes), um homem rude e que não se constrange de seduzir outras mulheres na frente da sua própria esposa. Respeito, na verdade, não é algo presente nesta relação. Vítima de violência doméstica e sem acreditar no amor masculino, Elsa aceita ir com seu algoz para o Rio de Janeiro, algo que fica óbvio desde os primeiros minutos do filme. Gilberto troca o sítio da família por um apartamento que não viu na cidade maravilhosa.
A viagem, feita de carro, acontece de forma rápida, como tudo nesse filme. Ao se despedir das amigas, Elsa ganha uma manta de bacalhau imensa, que poderia alimentar uma família de dez pessoas tranquilamente. Mas, como tudo esquisito nesse filme, em breve, ele vai se tornar úti – e óbviol.
Quando Oswaldo sai de casa, ele se muda para um apartamento que comprou em um prédio inacabado. Por coincidência, o protagonista exerce a profissão de engenheiro. Para coroar o divórcio e a moradia em uma ocupação, uma das pontes assinadas por Oswaldo cai após uma forte tempestade. A vida, próxima ao ano novo, parece ruir.

Como já adiantei, Elsa vai entrar na vida do engenheiro. Por óbvio, o apartamento que seu marido comprou é no mesmo prédio e no mesmo andar da obra inacabada. E é, então, que o destino dos dois se cruza. Talvez no teatro todas essas coincidências possam fazer sentido. Afinal, na arte cênica, tudo é subjetivo e não estamos ali para procurar razão. O exercício de imaginação é muito mais comum e bem-vindo que no cinema. Na sétima arte, queremos lógica, acontecimentos palpáveis e uma coerência. Nada disso é entregue por “Querido Mundo”
Existem duas boas cenas no longa. A primeira é durante a viagem de carro, quando Elsa conversa com uma garçonete que também é vítima de violência doméstica. As duas trocam a dolorosa experiência de “cair da escada”, como esse crime muitas vezes é conhecido. Com diálogos fortes e olhares de cumplicidade, quase podemos sentir as dores das duas. Outra cena interessante é quando Oswaldo escuta e compreende Elsa de forma genuína. Ele parece querer saber quem é aquela mulher, quais seus sonhos, suas pretensões, seu passado, diferente de Gilberto, que nunca teve escuta ativa com a esposa.
“Querido Mundo”, porém, é um filme tão repleto de obviedades e coincidências surreais que ele faz o que chamamos de “dar uma volta” e se torna cômico. Tragicômico, na realidade, porque rimos muito mais de vergonha alheia do que da proposta do filme. Realmente me diverti sentada na poltrona do cinema, mas essa diversão se deu pelo absurdo.
Foto capa: Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto
