Papagaios ousa na lógica e questiona a fama
Vale tudo para ficar famoso? Essa é uma dúvida que “Papagaios”, filme de Douglas Soares, deixa pairando no ar durante seus noventa minutos. Apresentado no domingo, dia 17 de agosto, o longa faz parte da Mostra Competitiva do 53º Festival de Cinema de Gramado.
Gero Camilo (Mussum, o Filmis; Carandiru) é um dos mais conhecidos “Papagaios de Pirata” do Rio de Janeiro. Onde um repórter estiver com entrada ao vivo programada, Tonico (Camilo) está lá. E, assim, ele vai colecionando aparições em jornais, revistas e televisões. Muito comum no Brasil, essa expressão é geralmente usada por algu, desavisado que aparece, sem intenção, na foto ou vídeo alheio. Contudo, existe um grupo de pessoas (ou seria um sindicato?) que se propõe a viver com fazendo essas aparições.
Ao subir no palco, Soares explica que a ideia surgiu ao lado do seu amigo e ator Humberto Carrão, enquanto eles observavam essas figuras curiosas que estavam sempre tentando achar seu espaço na mídia. Esse aspecto ficou bem representado em Papagaios.
Focado em aparecer, Tonico para ser um senhor solitário, que vive em uma casa com o seu… papagaio (o animal, literalmente). Após um grave acidente, o destino faz com que ele encontre um aprendiz para ensinar o seu legado, o jovem Beto (vivido por Ruan Aguiar, uma excelente surpresa do Festival).
A relação de mestre e aprendiz vai sendo construída com amor e obsessão. Enquanto eles se tornam quase pai e filho, Beto parece que está pronto para ocupar o local, custe o que custar. Tonico coloca o jovem para dentro de casa e começa a passar todos os seus ensinamentos.
Contudo, o ingênuo protagonista parece demorar a perceber o que está, realmente, acontecendo. É, então, que o thriller eletrizante se coloca à frente do espectador. Com olhares e uma atuação quase “psicopata demais” de Beto, a história que começa leve e divertida vai se tornando sombria e de suspense.

O roteiro vai prendendo a atenção enquanto os eventos vão se desenrolando e, quando notamos, estamos totalmente imersos na obra. A direção de arte feita com esmero ajuda a desenvolver o mergulho no universo.
Papagaios conta com participações divertidas, como de Claudete Troiano e até mesmo com um papel mais robusto de Léo Jaime, que vive ele mesmo. A velocidade da narrativa e a montagem bem realizada fazem com que seja um filme muito diferente do que costumamos ver e isso é ótimo.
Foto da capa: Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto
