O Homem Cordial é um soco no estômago oferecido por Iberê Carvalho | Crítica
Filme exibido em 2019 no Festival de Gramado ganha as salas de cinema do Brasil no dia 11 de maio de 2023.
Iniciando a Mostra Competitiva do 47º Festival de Cinema de Gramado, na sexta-feira, dia 16 de agosto (2019), Iberê Carvalho e O Homem Cordial chegaram com os dois pés no peito e com uma proposta de diálogo que traz provocações sobre privilégios de uma classe social específica.
Contando a história de Aurélio, vivido pelo músico e ator Paulo Miklos, o filme traz dois motes centrais que estão cada mais presentes em nossa sociedade: o uso das redes sociais para o mal e a consequência disso na sociedade e, principalmente, o privilégio dos brancos. Afinal, Matheus, um menino negro que foi entregar uma encomenda para a mãe dele, acaba no lugar errado, na hora errada e isso pode mudar a vida de todos. Inclusive, quando a vida dele cruza com a vida do astro Aurélio.
Acusado de roubar um celular, Matheus é defendido por Aurélio Sá, um astro que está tentando retomar a carreira musical que havia feito sucesso em 1980. Só que essa defesa leva sua nova carreira musical à derrocada, já que um vídeo da confusão é postado na internet e a morte de um policial é atrelada a ele.
Paulo Miklos embarca muito bem em seu papel, tão parecido e tão diferente da sua vida real. Aurélio aprende muito durante todo o longa e nós, consequentemente, aprendemos com ele. Enquanto ele, e nós, percebemos o nosso privilégio branco, também conseguimos começar a entender um pouco do que sofre a comunidade negra, principalmente quando os dois universos colidem.

Porém, o protagonismo todo deste filme não deve ser atrelado à um homem, branco, cis, hétero, de meia idade. O Homem Cordial está repleto de protagonistas negros que contam as suas histórias e emocionam, ganhando seu lugar de fala em cada cena e deixando a plateia constrangida, repensando em suas ações. Une-se a isso, a violência e o abuso de poder policial, que são amplamente abordados no filme.
Com célebres frases de Thaíde, o músico e dono do bar Béstia, o filme é uma rica concha de retalhos de reflexões profundas e tiradas engraçadas, que dão um tom colaborativo para a obra.
Iberê Carvalho, autor da obra, deixou claro que a ideia de fazer um filme em uma noite só, nas profundezas da cidade de São Paulo, é uma inspiração ao longa de Martin Scorcese, Depois de Horas. A cidade se torna um elemento importante na película. Com uma crítica social forte e uma vertente humanista, O Homem Cordial faz reflexão ao termo cunhado por Sérgio Buarque de Holanda e traz um desconforto necessário ao espectador.
É um soco no estômago importante e feliz do cinema brasileiro.
