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“Nó”, de Laís Melo, abre a competição do Festival de Gramado

O primeiro filme da diretora Laís Melo traz para o centro do debate uma pauta muito importante: a culpa feminina. Em “Nó”, longa que abriu a Mostra Competitiva do 53º Festival de Cinema de Gramado, Glória (Saravy) precisa sobreviver e reconstruir sua vida após um divórcio.

Mãe de três filhas, a mulher trabalha em uma fábrica de pipocas doce e está concorrendo a uma promoção para a vaga de supervisora. Enquanto a vida pode tomar um rumo melhor, Glória fica sabendo que o pai de suas filhas está pedindo a guarda delas na justiça. Aqui já temos um ponto interessante: este homem não aparece. Ele é apenas um incômodo que está permeando a vida da protagonista. Até quando ela quer ir no portão falar com ele, as filhas a impedem.

Glória tenta viver sua vida, sua feminilidade e até mesmo a sua sexualidade apesar de todos os percalços. O fato de ter duas filhas adolescentes e uma pré-adolescente não trava sua narrativa e isso já é uma grande vantagem do roteiro. A maternidade não a impede de ser mulher e de se divertir. Contudo, a culpa está ali. Mais simbólica que declarada, o sentimento se apresenta em todas as ações dela.

A culpa também o que nos dá uma das piores cenas do longa. O final que apresenta um realismo fantástico joga para baixo toda evolução do filme que começa lento, mas que vai engrenando. Uma das grandes falhas deste roteiro é que ele não parece ter um propósito. Onde ele começa e onde ele quer chegar? Será que precisamos ter um final fantástico para uma história tão mundana, comum e poderosa?

Não é apenas a história que leva um tempo para nos fisgar. O elenco parece começar bem fora de tom, mas encontra seu caminho durante a narrativa. Diferente de Saravy. A protagonista entrega desde a primeira cena e consegue crescer, tendo seu ápice na cena em que está diante de uma juíza da vara da família. Provavelmente, uma série candidata ao Kikito de Melhor Atriz.

Além da cena já citada anteriormente, outro grande destaque fica por conta das interações de Glória e suas filhas. Um universo que precisou se encaixar para funcionar, uma engrenagem que faz com que todas cuidem de todas e que se amem, independente da realidade em que se encontram. Glória é uma mãe cansada que, até mesmo quando passa um pouco dos limites no castigo, mostra que o que move ela é seu amor pelas filhas. É por elas que atravessa um processo seletivo, um divórcio e a procura por um novo lar.

“Nó” é um bom ponto inicial para a diretora Laís Melo. O filme tem um propósito interessante, mas se perde por não ter um recorte bem delimitado. Saravy brilha e o enredo, se tivesse aparado algumas arestas, podia ser um filmaço.

Foto de capa: Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

Veredito da Vigilia

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