MICHAEL: O ícone merecia mais!
O rei do pop, Michael Jackson, finalmente ganhou a sua cinebiografia, com Jaafar Jackson, seu sobrinho, como protagonista. O resultado é visualmente competente, mas conservador e mediano
A primeira parte da história de Michael nos é apresentada no longa, que deverá ter uma continuação em mais um filme ainda sem data de lançamento. Ali acompanhamos a juventude de Michael, desde o começo dos Jackson 5, sob comando do pai, Joseph.
É o brilhante Colman Domingo quem o interpreta. Sua presença em cena é marcante, conseguindo nos fazer detestar o “personagem” (ainda que isso já fosse esperado, dadas as circunstâncias da história real). Mesmo assim, quem realmente se destaca é o novato Juliano Valdi, de 12 anos, que faz a sua estreia nas telonas interpretando o jovem Michael. Sua performance tem tudo para marcar o início de uma trajetória promissora.
A transição dos anos nos leva a Jaafar Jackson, em seu primeiro trabalho como ator. Apesar da inexperiência, sua entrega é satisfatória. A semelhança, tanto pela biologia quanto pela caracterização, joga a seu favor e ajuda na construção do personagem. Ainda assim, há um certo estranhamento nesse processo. Tal qual Rami Malek em Bohemian Rhapsody, às vezes a busca pela semelhança beira o caricato, embora aqui isso aconteça de forma bem mais sutil.
Para os verdadeiros fãs, que conhecem a carreira do ícone, é um momento especial de ver mais de Michael, sua sensibilidade e genialidade, em outros moldes. Nesse sentido, o filme acerta ao destacar seu poder e singularidade, ainda que sem ir muito além disso.
O longa perde a oportunidade de nos contemplar com uma obra à altura do astro. As cenas musicais são praticamente tiradas dos videoclipes que conhecemos, não agregando muita novidade. Poderíamos ter Michael ensaiando sozinho, construindo suas músicas, cantarolando pelo estúdio ou mesmo performando em cenários além dos mais famosos que encontramos no YouTube.
A montagem, por vezes, traz sequências eletrizantes, mas também deixa a desejar. Poderia ter contribuído melhor para as passagens de tempo, que ora ficam aceleradas demais, ora lentas demais, e para a valorização dos tantos detalhes preciosos da jornada de Michael que acabam ficando para trás.
Nos bastidores, temos quase toda a família Jackson na produção do filme. Mãe, irmãos e um dos filhos de Michael participaram ativamente da construção do longa. Ainda assim, chama atenção a ausência, tanto na história quanto por trás das câmeras, de Janet. A irmã mais nova de Michael preferiu não se envolver no projeto, mesmo sendo um dos membros da família com quem o cantor tinha maior proximidade. Paris Jackson, filha de Michael, também não se envolveu e, inclusive, criticou o resultado do filme, apontando diversas diferenças em relação à história real.
A família parece ter buscado honrar a memória e o legado de Michael de forma mais suave, tentando evitar polêmicas e contornar episódios mais delicados. Porém, entre desacordos familiares e um filme mediano, o resultado é um distanciamento maior e uma sensação de frustração diante do que vemos em tela.
Se tratando da direção de Antoine Fuqua, conhecido por trabalhos como Dia de Treinamento, O Protetor e Emancipation – Uma História de Liberdade, a expectativa com certeza era maior. Em Michael, temos uma narrativa linear, sem inovação e sem muitos floreios. Faltou o molho! Enquanto em Rocketman, por exemplo, conseguimos mergulhar na imaginação, no processo e nos anseios de Elton John, aqui acabamos tendo uma corrida contra o tempo para entregar muita informação, mas pouca individualidade. Faltou uma combinação mais potente dos elementos da história, vida e alma do cantor para permitir que o telespectador realmente pudesse imergir na história.
A curiosidade em relação à segunda parte segue existindo, afinal, está ali a oportunidade de entregar uma obra mais potente, no nível da estrela que Michael foi. Em tempos de fanservice, não seria o primeiro (nem o último) caso de um projeto ajustado a partir do feedback do público, da crítica e dos fãs. Um caminho que tanto pode elevar quanto comprometer o resultado, mas que aqui ainda tem chance de virar o jogo.
