A anarquia e o caos dominam “A Noiva”
Quando a atriz, roteirista e diretora (já indicada ao Oscar), Maggie Gyllenhaal, resolveu recriar a sua própria versão de Frankenstein, ou melhor, A Noiva de Frankenstein, ou ainda, tudo junto e misturado, ela fez a aposta no caos. No caos e na anarquia. E assim é A Noiva (The Bride!) do início ao fim. O que pode ser um novo clássico cult, que estreia neste dia 5 de março em todos os cinemas do Brasil, também pode ser apenas mais um filme incompreendido e que pouco ressoará nas bilheterias e no gosto do público. Como diriam aqui na aldeia, “só o futuro dirá!”. Mas o certo é que Maggie apostou alto, apostou caro, e, ao que tudo indica, pouco se importou com qualquer tipo de regra. A Noiva é um cinema um tanto quanto autoral, experimental, e porque não… diferente de todo padrão que se espera em filme oriundo de Hollywood. Inclusive de seu antecessor direto “A Filha Perdida”.
Para seu ousado projeto, ela chamou Christian Bale (dispensa apresentações), para ser a nova interpretação de Frankenstein, ou aqui, só Frank, e a indicada ao Oscar por Hamnet, Jessie Buckley, para viver a Noiva (e outras duas personagens essenciais). Completam o núcleo central ainda nomes como Annette Bening, Jake Gyllenhaal e Penélope Cruz. Na trama, Frank, que já atravessou muitas gerações, viaja para Chicago, onde vai pedir para a cientista Dra. C. Euphronious (Annette), que lhe entregue uma companheira.
Por passar tanto tempo privado de tantas “necessidades” humanas, o nosso Frankenstein é um misto de ser inocente, visceral e experiente. É claro que o plano inicial dá certo, e temos Jessie Buckley renascendo após uma morte trágica que mistura uma estranha possessão. A personagem antes chamada de Ida, que celebrava em um restaurante de um mafioso, morre pouco tempo depois de ser “invadida” pelo fantasma aprisionado de ninguém menos que … bom, essa é melhor não entregar logo de cara.

A partir daí, Frank e sua Noiva percorrem uma relação inicialmente de estranhamento, mas que vai aos poucos se solidificando. Tudo é claro, sempre em meio ao caos. Seja ele estético, narrativo, cultural ou o que seja. A Noiva desde seus créditos iniciais e passando até mesmo pela sua estratégia de marketing, já parece concebido para marcar posição em seu estilo visual. A maquiagem marcada, ao que tudo indica, é um ícone que tem tudo para influenciar na moda, mesclando um estilo gótico com tons de pop. Após um acontecimento marcante, o casal passa a ser perseguido criminalmente, enquanto se descobre e passa também realizar sua perseguição particular: um romance selvagem e explosivo… e fora da lei.
Os agora “partners in crime” (literalmente) nos jogam para uma estrada estranha. Original, mas estranha. Ao defenderem suas próprias causas, o espectador se vê em muitos momentos se questionando ‘onde tudo aquilo pode parar’ (?). Como todo o filme que envolve criaturas, algumas questões estarão lá bem marcadas. Afinal, são as criaturas os verdadeiros monstros? De quebra, A Noiva ainda consegue consolidar doses potentes de empoderamento feminino e críticas vorazes ao machismo estrutural, principalmente pela personagem de Penélope Cruz. Tudo muito bem sustentado pelo elenco, que, ao que tudo indica, comprou fortemente a proposta da diretora.

As respostas (ou busca delas) ao longo do filme nunca serão óbvias, com exceção para o final, que mesmo trágico, tem tons bem clichês. A jornada até lá, no entanto, vale destacar: não é palpável como qualquer filme tradicional. Ao apostar na anarquia e no caos, Maggie também se ampara em situações desconfortáveis, que se refletem em um filme truncado, pouco fluído e que pode soar um tanto desencontrado. Com isso, faz escolhas que (propositalmente) muito mais privilegiam as questões artísticas do que de uma trama sem arestas e de fácil digestão.
Afinal, causar visualmente também é uma escolha narrativa. E em “A Noiva”, isso fatalmente pode se refletir em um filme incompreendido.
